Sexta-feira, Julho 25, 2008

Há sempre uma baliza entre dois ruídos

Está ali um muro baixo e branco. Para além dele, a escarpa sobre a praia curta e o mar azul-escuro, que o sol já se vai pondo. Do lado de cá, os candeeiros esguios começam a dar sinais de luz em crescendo.
Sentado no muro está um homem velho, com um copo de plástico vazio na mão, virado para a maré baixa. Um outro homem aproxima-se devagar, do lado mais claro do crepúsculo, mancha escura na claridade já difusa. Este outro homem não é tão velho como o primeiro, que se curva sobre a praia, mas será pouco menos.
– Olá, amigo. – diz o homem mais novo, enquanto se senta à direita do outro, mas virado para a estrada.
– Olá. – responde o velho, sem tirar os olhos do oceano.
No momento seguinte passa um automóvel roncando rápido sobre o rugido do mar. Levanta-se vento. Um monte de folhas secas revolve-se e desfaz-se contra o muro. Depois aquelas folhas vão-se enrolando numa espiral ascendente que sorve o ar húmido e logo o devolve ao lusco-fusco, num suspiro quase inaudível, fazendo-as cair de novo, numa desordem aparente.
O homem mais novo mete a mão esquerda no interior do casaco e tira de lá um cantil reluzente, enquanto pega suavemente com a direita no copo que o velho segura. Serve meio copo do que parece ser whisky e devolve-o ao outro, que o olha agradecido. Fazem um brinde mudo e bebem três grandes golos ao mesmo tempo.
– Hoje não me apetece falar de futebol. – diz o mais novo.
– Isso passa.
O velho bebe mais um golo e mete por sua vez a mão esquerda no casaco, tirando um maço de cigarros.
– Queres um?
– Sim, obrigado.
Acendem os cigarros na mesma chama, que já parou o vento, e fumam calados.
Passa outro automóvel, este mais lento e discreto. O homem velho sorri de repente.
– Sabes, às vezes, quando fumo, lembro-me do meu pai a dar-me o meu primeiro maço de tabaco. Foi no dia em que fiz dezasseis anos.
– Que belo presente de aniversário! – ri-se o outro.
Mas não foi tudo: também me deu dinheiro para as putas e disse-me que só me faltava ir à tropa para me tornar um homem.
– Suponho que foste obediente…
Riem-se os dois, entreolhando-se. O velho fecha o sorriso enquanto vai falando.
– Fiz tudo o que era suposto fazer para me tornar um homem aos olhos do meu pai e de toda a gente.
O outro toma um ar um pouco mordaz.
– Comigo foi diferente. Bem vistas as coisas, não cheguei a tornar-me um homem.
Agora passa uma motorizada ruidosa que acrescenta um cheiro de gasolina queimada à maresia. Apagam os cigarros no pedaço de muro entre os dois.
O velho bebe mais e assume a expressão de quem recorda.
– Cresci a apanhar pontas do chão com os outros putos e a fumar aquela porcaria como se fosse a melhor coisa da vida. Fazia-nos sentir homens…
Faz um gesto vago. Com ar pensativo, o outro leva o cantil à boca. Solta um curto suspiro, à laia de introdução.
– É, parece que agora é mais homem quem não fuma… Sabes, já nem me apetece ler o jornal no café. Sem fumar, não é a mesma coisa.
– Pois, é como eu.
Mais um golo, mais um carro que passa. Ao longe, o sino de uma igreja badala insistente e já anoiteceu. O mar continua a rugir no escuro e o muro tornou-se cinzento amarelado. O mais velho encolhe-se um pouco antes de falar.
– Como dizia o poeta, nunca perguntes por quem os sinos dobram…
O outro sorri.
– Oh, meu velho, deixa-te disso.
Fica em silêncio por momentos, abre subtilmente o sorriso e continua.
– Diz-me, achas que há alguma coisa constante na vida?
O homem mais velho olha para o mais novo com ar interrogativo, depois muda-se-lhe o semblante para uma expressão vaga, a seguir um pouco triste, logo clarividente, e, finalmente, volta à interrogação, mas desta vez irónica.
– Talvez a mudança?
O outro dá-lhe uma palmadinha no ombro e dispara, rindo:
– Isso! E não dizem que a mudança é sempre para melhor?
– Pois sim…
O mais velho faz um sorriso amarelo antes de dar o último golo. E depois também. O vento áspero acorda sobressaltado e vai fazer restolhar as folhas que há pouco deixara hesitantes, enquanto os sorrisos dos dois homens se vão diluindo nas suas faces enrugadas.
É o mais velho que quebra o silêncio.
– Os meus ossos estão a queixar-se do frio. Acho que vou para casa.
Por momentos, tudo o que se ouve é o mar a resmungar sozinho. Então o mais novo pergunta:
– Dás-me outro pró caminho?
– Outro quê?
– Cigarro, meu velho!
– Ah, isso. Toma, leva dois.
– Obrigado.
O homem velho ergue-se devagarinho, de copo vazio na mão. Depois levanta uma perna, passando-a por cima do muro, até a pousar pesadamente na calçada, e endireita ligeiramente as costas. Descansa três segundos e traz a outra perna, por sua vez, para o lado de cá. O homem mais novo também se levanta, um pouco mais agilmente, quanto mais não seja porque já tinha os pés no passeio.
Os dois ficam frente a frente, de pé, entreolhando-se por dois segundos. O menos velho guarda um cigarro no bolso da lapela e acende o outro. Com a primeira baforada sai-lhe um sorriso afável.
– Até amanhã.
– Até amanhã.
O mais velho retribui o sorriso e finge um brinde com o copo já meio amachucado. Em seguida começa a caminhar para o lado direito, quem vê daqui, enquanto o outro se afasta na direcção oposta. Percorridos alguns metros, o homem mais velho, que coxeia um pouco, pára, vira-se para trás e fica a ver o outro a diminuir na paisagem nocturna até desaparecer.
A ladainha surda do mar é de novo perturbada, desta feita por um silvo distante, embora distinto, de uma sirene.
O homem velho volta-se de novo para o mar. Repete vagarosamente o gesto decorado de se sentar no muro baixo, com os pés apoiados num acidente confortável da rocha escarpada.

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