Quarta-feira, Setembro 10, 2008

O que ando a ler II

“ A condição humana”, de André Malraux, 1933

Edição Livros do Brasil, tradução de Jorge de Sena

Eis um fragmento:

“ – O pensamento que se aplica a elucidar uma mulher tem qualquer coisa de erótico…Querer conhecer uma mulher, não é, é sempre uma maneira de a possuir ou e se vingar dela…

Uma «pega» qualquer, na mesa próxima, dizia a outra: «- Não ma pregam assim tão facilmente como isso. Vou dizer-te: é uma mulher que tem ciúmes do meu cão».

– Eu creio – tornou Gisors – que o recurso ao espírito tenta compensar isto: o conhecimento de um ser é um sentimento negativo: o sentimento positivo, a realidade, é a angústia de se ser sempre estranho àquilo que se ama.

– Alguma vez amamos?

– O tempo faz desaparecer por vezes essa angústia, só o tempo. Nunca se conhece um ente, mas deixamos por vezes de sentir que o ignoramos (penso no meu filho, não é, e também… num outro rapaz). Conhecer pela inteligência é a tentação vã de passar sem o tempo…

– A função da inteligência não é a de privar-se das coisas.

Gisors olhou para ele:

– Que entende por: a inteligência?

– Na generalidade?

– Sim.

Ferral reflectiu.

– A posse dos meios de forçar as coisas ou os homens.

Gisors sorriu imperceptivelmente. De cada vez que fazia aquela pergunta, o seu interlocutor, quem quer que fosse, respondia com o retrato do seu desejo. “

1 comentários:

bartleby disse...

Mmmmm!!!! Gostei do sorriso imperceptível de Gisors!