“E à medida que a luz adquiria intensidade, expulsava diante de si exércitos de sombras, que se aglomeravam umas contra as outras e forravam a distância com os seus tecidos de mil pregas.”
Virginia Woolf
Deixar para depois é uma atitude comum entre as pessoas. Pode chegar a ser sintoma de uma perturbação psiquiátrica, quando praticada em excesso. É conotada negativamente, pelo senso comum, com a preguiça e a irresponsabilidade. Demorar a fazer as coisas ou espaçar os momentos de concretização são também, frequentemente, atitudes necessárias ao amadurecimento de ideias e à ponderação de decisões.
Os processos mentais e emocionais subjacentes à protelação de tarefas fazem parte de uma luta quotidiana que todos travamos com o Tempo. Aconteceu-me encontrar em dois espaços distintos, em diferentes momentos, postos de observação privilegiados desses processos: no “Bordel”, um bar efémero; no “Maria vai com as outras”, que existe ainda, agora, aqui. Entre as luzes caprichosamente vagas e os objectos emergindo de cantos sombrios, entre os copos e os cigarros, entre a música e o cinema, entre a literatura e as artes plásticas derramadas nos móveis, nas paredes e nas conversas, dei por mim a pensar recorrentemente sobre as relações das pessoas com os espaços, no Tempo.
Qualquer espaço que seja utilizado quotidianamente por pessoas sofre metamorfoses constantes. Por outro lado, um dado lugar é o mesmo para toda a gente, mas as imagens mentais que cada um constrói e conserva de um espaço e do seu ambiente são individuais, tanto quanto o são as vivências em si. A memória distorce qualquer cronologia, sendo simultaneamente a única ferramenta que nos permite a percepção temporal. É também o mecanismo que nos permite (ou obriga a) projectar o futuro e tomar decisões, como a de postergar alguma coisa.
Estes dois lugares tornaram-se, assim, cenários sugestivos para a minha reflexão, da qual me veio a vontade de figurar algumas evocações de momentos neles vividos, sucessivamente filtrados ao longo do meu percurso entre a observação e a criação. Desse percurso fez parte a execução de desenhos a carvão e pastel seco, mas também de desenhos a esferográfica, num caderno, cujas páginas foram preenchidas diariamente, como um mapa do raciocínio subjacente às opções do processo criativo.
Vale a pena perder tempo para reencontrar o Tempo.
Sara Nelma
Sexta-feira, Novembro 11, 2011
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